Jun 01 2008
A Starbucks japonesa
No final dos anos 50, o representante comercial Hiromichi Toriba, da Suzuki Coffee, importadora japonesa de café, recebeu do chefe a incumbência de conhecer de perto o mercado que era o maior produtor do grão. Assim, o jovem de 20 anos, que nunca havia saído de seu país, desembarcou sozinho no Brasil para dar conta da tarefa. Ficou por aqui mais de dois anos, a maior parte deles em São Paulo. Entre outras coisas, Toriba trabalhou numa fazenda e realizou negócios na Bolsa do Café, em Santos, no litoral do estado. Foi um período marcante o suficiente para que Toriba resolvesse homenagear o Brasil ao montar seu primeiro negócio próprio, já na década de 60. Batizou a empresa de Doutor Coffee (assim mesmo, com o primeiro nome em português), uma referência à rua Doutor Pinto Ferraz, no bairro paulistano de Vila Mariana, onde ele morou durante seu estágio no país. A empresa deu origem àquela que é hoje a maior rede de cafeterias do Japão. “No Brasil, realizei estudos intensivos sobre seleção de grãos, misturas e torrefação”, diz Toriba, num trecho de sua autobiografia publicada em 1999, Omoukotoga Omouyouninaru Doryoku (“Como o esforço de trabalho pode tornar seus sonhos reais”, numa tradução livre).
A Doutor Coffee começou atuando no ramo de importação e venda de café no atacado. Na década de 70, depois de visitar a Europa e conhecer de perto algumas cafeterias da França, da Alemanha e da Suíça, Toriba resolveu copiar o modelo no Japão, entrando para o ramo de varejo. A primeira loja Doutor Coffee abriu suas portas em 1980, em Tóquio. Desde o início, o fundador adotou o modelo de fast food. O negócio tinha poucos funcionários, os clientes podiam se servir no balcão em menos de 10 minutos e o cardápio, apesar de reduzido, oferecia outros itens, como lanches e sucos. O carro-chefe desde então eram as xícaras de café, vendidas ali por um preço equivalente a 1,50 dólar, numa época em que o mesmo produto chegava a custar quase sete vezes mais em restaurantes da cidade. Com o charme da novidade e um preço imbatível, a Doutor Coffee tornou-se um sucesso no Japão.
A expansão do negócio foi vertiginosa e a rede domina o mercado até hoje. Atualmente, tem 1 500 lojas no Japão, mais que o dobro de sua concorrente mais forte, a cadeia americana Starbucks, que chegou ao país em meados dos anos 90. Segundo cálculos de Toriba, a Doutor Coffee vende atualmente uma média de 400 xícaras de café por minuto. No ano fiscal de 2007, encerrado em março, a companhia fechou o balanço com faturamento de cerca de 600 milhões de dólares, 7% mais do que no ano anterior. Para atender diferentes tipos de público, a rede reúne seis marcas de lojas. A mais sofisticada foi batizada de Le Café Doutor e fica em Ginza, bairro de Tóquio com um dos metros quadrados mais caros do mundo e que concentra as grandes grifes internacionais de moda. “Além de se manter no topo durante todo esse tempo, a Doutor Coffee conseguiu a façanha de crescer ininterruptamente em seus 46 anos de existência”, afirma Taneo Moriyama, da empresa Insight Inc., uma das consultorias mais respeitadas do Japão nas áreas de alimentos, varejo e agronegócio.
Embora sua trajetória seja pouco conhecida no exterior, Toriba é hoje um dos empresários mais admirados pelos japoneses, um povo que costuma demonstrar especial apreço por empreendedores que começaram do nada. Quando adolescente, após uma briga com o pai, Toriba fugiu de casa, na cidade de Saitama, na região metropolitana de Tóquio. O tema da discussão era a divisão do dinheiro do trabalho da família, que vendia peças para brinquedos. Em sua autobiografia, Toriba narra que, no auge do bate-boca, o pai chegou a ameaçá-lo com uma espada de samurai. (Hoje, quando toca no assunto, o empresário procura amenizar o episódio, dizendo que o pai perdeu a cabeça, mas não tinha a real intenção de feri-lo.) Ao sair da casa dos pais, Toriba abandonou os estudos e se mudou para Tóquio, onde começou a ganhar a vida trabalhando como garçom.
Dois anos depois de uma dura rotina servindo clientes num restaurante da capital japonesa, o fundador da Doutor Coffee recebeu um convite para ingressar no quadro de vendedores de uma empresa que comercializava café. Apesar das dificuldades com a timidez — Toriba conta que ficava com o rosto vermelho e perdia a fala sempre que era apresentado a um desconhecido —, o instinto de sobrevivência falou mais alto. Pouco tempo após chegar à empresa, Toriba já era o melhor vendedor da companhia. Sua capacidade logo chamou a atenção da concorrência e ele acabou seduzido por uma proposta de trabalho da Suzuki Coffee, empresa que o despachou para o Brasil no final dos anos 50.
Nas mais de quatro décadas de liderança folgada da Doutor Coffee no mercado japonês, o único concorrente que provocou algum incômodo foi a rede americana Starbucks. A multinacional chegou ao Japão na segunda metade dos anos 90 e cresceu rapidamente no país, mirando num público mais jovem e com maior poder aquisitivo que a média de clientes da Doutor Coffee. A reação de Toriba foi imediata. “Ele diversificou ainda mais o perfil de suas lojas, lançando marcas como a Excelsior Caffé, mais sofisticada e especializada em café expresso, e a Salon de Thé Madaleine, uma casa de chá voltada para mulheres. Além de conter a expansão dos americanos no país, essas idéias têm gerado bom retorno até agora”, afirma o consultor Moriyama. Na época do lançamento da Excelsior, a Starbucks entrou na Justiça contra Toriba, alegando que ele havia copiado seu logotipo e o design das lojas. O processo não prosperou.
Casado e pai de dois filhos, Toriba manteve-se à frente da Doutor Coffee até 2006, quando passou a presidência da rede para seu primogênito, Yutaka Toriba, de 44 anos. Apesar de estar oficialmente fora do dia-a-dia da operação, o fundador ainda ocupa o cargo de presidente honorário da companhia e é o maior acionista da holding que hoje controla a empresa. Como ocorre com a maioria dos homens de negócios mais importantes do Japão, pouco se sabe sobre a vida pessoal de Toriba. Ele mora com a mulher em Tóquio e segue a linha budista Soka Gakkai. Segundo essa escola filosófica, a educação é a forma mais adequada de forjar o caráter das pessoas e levar o país à prosperidade. Toriba também é muito requisitado para dar palestras a estudantes, incentivando o espírito empreendedor dos jovens.
As ligações entre o empresário e o Brasil continuam fortes até hoje. Depois do período em que viveu no país, ele já voltou para cá diversas vezes. Assim como as maiores torrefações do mundo, a empresa de Toriba mantém o Brasil como seu principal fornecedor. “A Doutor Coffee é um dos nossos maiores clientes e compra mensalmente. O senhor Toriba exige os melhores grãos, produzidos exclusivamente no cerrado mineiro, no sul de Minas e na região mogiana do estado de São Paulo”, diz Carlos Santana, representante da trading Ecom, uma das principais fornecedoras de grãos à rede japonesa. Cerca de um terço da matéria-prima utilizada pela Doutor Coffee vem do Brasil. O restante dos grãos é importado de outros países e de fazendas próprias que a empresa mantém no Havaí.
Os fortes laços entre o Brasil e a Doutor Coffee serão reforçados neste ano. A empresa fez uma encomenda especial para comemorar o centenário da imigração japonesa no Brasil. Trata-se de um blending genuinamente brasileiro, 100% produzido em uma fazenda de um descendente japonês no sul de Minas, que será lançado nos próximos meses nas lojas da Doutor Coffee no Japão. No início de junho, o atual presidente da companhia, Yutaka Toriba, estará no Brasil para provar os primeiros lotes da encomenda e realizar uma série de visitas a fazendas e reuniões com alguns fornecedores. É a forma simpática que a empresa encontrou de homenagear o lugar que mudou para sempre a vida do fundador da Doutor Coffee.
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[...] dias comi um sanduiche no Doutor Coffee e comi um sanduíche Milano B (??????B), esse que ta na foto ao lado e um Green Tea [...]
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