Nov 30
icon1 Samantha | icon2 Uncategorized | icon4 11 30th, 2006| icon31 Comment »

Mudança radical

Engraçado como começar a conversar sobre um tema faz surgir mil conjecturas.
Hoje estava na dentista (uma nikkei) e ela me falou que esteve no Japão a passeio uma vez por duas semanas e ficou impressionada como as pessoas trabalham lá, como é pesada da vida.
Eu ri. Claro, com educação, mas sorri porque é o conceito geral das pessoas sobre os parentes que moram aí. E não é mentira, pelo contrário. É a mais pura verdade.
Comentei com ela algo que achei válido registrar aqui: que os dekasseguis sofrem não só com a distância do país de origem e a carga de trabalho excessiva, sofrem é com a perda do status. Veja, a imensa maioria de nós, que fomos ao Japão como dekasseguis, era de classe média, pelo menos da classe C. Muitos jovens classe B+ mesmo, os famosos “filhinhos de papai” - conheci muitos deles lá. Por conta disto, quem foi lá deixou de ser classe média, lá no Japão foi reduzido a classe C- ou D, se formos considerar não o salário, mas sim as condições gerais de vida, como moradia, tranporte, tipo de trabalho.
Aqui muitos de nós nunca pensou como era o cotidiano de um operário, de alguém que vive na classe social do operariado, de quem faz basicamente trabalho braçal, porque saímos de famílias onde tínhamos alguém para fazer os trabalhos para nós.
Aí eu acho que se mostra a diferença da capacidade de adaptação de alguns e a incapacidade de outros: quem aqui já fazia um trabalho mais pesado (por exemplo, quem era mecânico de automóveis) não sentiu tanta diferença na rotina pesada, no esforço físico e deu um jeito na moradia -ou aprendeu a conviver com ela. Mas quem saiu de um “trabalho de escritório” aqui no Brasil direto para uma fábrica japonesa, sentiu -e muito.
Eu saí da redação de um jornal onde eu ficava sentada (a tia do café trazia o café na nossa mesa) para uma fábrica de automóveis, a Suzuki de Kosai. Nas primeiras semanas, todo dia parecia que eu tinha levado uma surra e eu cheirava a Salompas (gel e spray para tirar dores musculares, como Gelol) o tempo todo. E eu ainda calculava quanto uma mulher ganhava (bem menos que os homens) e ficava com raiva de ter largado meu salário, porque a troca não era financeiramente tão compensadora. Mas depois me ajustei, me apaixonei pelo Nihon, acabei indo para o jornal de brasileiros e acabei vendo que valeu a pena. Mas não tenho certeza se achei isto porque caí na real ou se foi porque eu voltei ao meu status quando fui para o jornal.
Enfim, quando alguém considera a hipótese de ir para o Japão ser dekassegui deve considerar também que deixará de ser o que era aqui no Brasil (independente do que era, de onde veio, filho de quem era) para ser apenas mais um operário estrangeiro temporário numa fábrica japonesa, num país que viveu com um sistema de castas rigorosíssimo por milênios e que apesar de ter saído dele há algumas décadas, ainda classifica muito as pessoas pelo que elas fazem.
No Japão antigo, era a profissão que definia o futuro ou as chances de futuro das pessoas, não sua real capacidade, aptidão ou vontade pessoal. A pessoa nascia e morria a mesma coisa: nobre ou samurai, proprietário de terras, artesão, mercador (este foi uma novidade do período Tokugawa, veio na mesma época que a burguesia européia), religioso. E quem tinha a infelicidade de herdar dos pais uma profissão ruim, seria um pária da sociedade para sempre, como acontecia com os etas (maculados) ou hinin (não-humanos). Os hinin reuniam gente do mundo do espetáculo, carcereiros, carrascos, etc. Eta denominava os que tinham profissão ligada ao abate de animais. Crê-se que a origem deste preconceito se deve ao xintoísmo e budismo, que consideravam mácula todo trabalho ligado à morte e ao sangue.
Eu lembro de ter uma passagem assim no livro Xogum de James Clavell em que um dos empregados que serviam ao holandês foi obrigado pelo patrão a limpar uma caça (uma ave que ele tinha caçado). O empregado obedecia ao mestre mas depois se matava para expiar o erro e evitar a queda. Radical é pouco!

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Nov 29
icon1 Samantha | icon2 Uncategorized | icon4 11 29th, 2006| icon3No Comments »

Agora sobre o Natal lá…

Agora falando não como profissional e sim como crente, eu senti que faltava um elemento maior no Japão e em grande parte dos dekasseguis, a fé. Percebo aqui nos amigos nikkeis que tenho (muitos ex-dekasseguis) como eles não receberam a fé verdadeira como uma herança familiar, como faltou isto no berço e o vazio os deixa sem saber para onde se voltar. Dentre as pessoas que eu conheço as que se saíram melhor financeiramente eram as mais determinadas e capazes de sacrificios (e as menos propensas a uma vida hedonista), mas a verdade é que as que conquistaram a felicidade plena (uma união feliz, estabilidade financeira, foram abençoadas com filhos) eram pessoas com fé verdadeira.
Uma coisa que lembro bem no Japão é que na época do Natal (nesta época do ano), as lojas e enchiam de enfeites e sugestões de compras, mas nos chamou atenção, a mim e a meu marido, que em praticamente tudo se escrevia X-Mas. Uma abreviação da lingua inglesa, eu sei, mas a gente comentava um com o outro que eles não conseguiam vivenciar o Natal porque não tinha conhecido ainda o Sr. X… porque é preciso saber que é Christ-mas para entender o porquê desta data ser especial.

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Nov 29
icon1 Samantha | icon2 Uncategorized | icon4 11 29th, 2006| icon3No Comments »

Nesta semana fui contatada por uma pastora da Igreja Holliness que está participando de um projeto para pensar como será o dekassegui daqui a 10 anos. Achei a idéia muito interessante, ofereci-me de pronto a ser uma colaboradora permanente. Tenho grande simpatia pela Holliness, se eu frequentasse uma igreja seria esta. Temos um casal de amigos que apreciamos muito e são “criados” na igreja, a Megumi e o Lucas.
Mas sempre que ouço falar de algum projeto ou estudo sobre dekasseguis eu me preocupo. Nesta década ligada ao movimento eu notei que a maioria das pessoas que resolve estudar o movimento dekassegui e pensar o futuro dos dekasseguis não foi realmente dekassegui. Sinto pesar porque não percebo que as ações, as propostas e as hipóteses são 100% válidas, por não ter identificação e real conhecimento de causa. Quem sabe desta vez?
De certa forma compreender o dekassegui é principalmente nos colocarmos no lugar de nossos ancestrais, dos nossos pais e avós que vieram para este país sem compreender nada em busca de uma condição de vida melhor. Creio que se compararmos as situações que as diferentes gerações de migrantes dekasseguis viveram perceberemos que há muitos pontos em comum nas dificuldades enfrentadas e na forma como eles reagem a elas e ao ambiente hostil. É um ponto para começarmos a compreender.

Ela me perguntou:
Posso deduzir que o fenômeno dekassegui seguirá as tendências dos caminhos que nossos (meus) pais tomaram?
Respondi que não sei se tomará os mesmos caminhos, mas vejo que os atuais dekasseguis estão repetindo muitos comportamentos: fecham-se em nichos, negociam quase só entre si, ainda casam-se praticamente entre si, não estruturam de fato as questões de moradia porque consideram que a experiência é provisória e poucos estão fazendo uma carreria propriamente dita, pensando em crescer em alguma empresa e se aposentar, coisas que geralmente um trabalhador nikkei pensaria.
Por outro lado, considero uma pena o fato de eles não darem a mesma importância à educação que nossos ancestrais deram, talvez porque muitos dos que se foram daqui eram pessoas com pouca capacitação formal, não a considerando imprescindível. Mas o fenômeno das escolas em separado, como eram os nihongakkos de antigamente nos sitios, ainda se mantém. No entanto, vejo que as crianças de lá, hoje já adolescentes e muitos dos quais interagem comigo pela internet, falam muito mal a lingua natal dos pais, como aconteceu com a geração do meu pai (por exemplo), um nissei que só escuta japonês, não fala.
O que eu percebo em todos os fenomenos migratórios é que há uma repetição de vários comportamentos que foram assimiliados pelo exemplo, e noto que no fenômeno dekassegui este também é o fator que diferencia os pretensos “sucessos” e “fracassos”.
Considerando “sucesso”, do ponto de vista da sociedade, como a pessoa que foi e conseguiu se sair bem, voltar com muito dinheiro e construir uma segurança financeira aqui e “fracasso” o que não fez nada disto e se tornou o “dekassegui profissional”, que vive no vai-e-vem entre Brasil e Japão há muitos anos e não se ajusta mais ao nosso país, passando apenas breves períodos aqui.
Mas considerar um bem-sucedido e o outro fracassado é um ponto de vista muito superficial. Muitos de nós também, apesar de sermos brasileiros, sentimos o apelo da terra natal ao conhecer o Japão, e passamos a ter o nihongairi que nossos ancestrais sentiram por todo o tempo que permaneram no Brasil. Há quem o sinta mais pelo Brasil, outros pelo Japão.

Então como julgar o que conflito que assola o dekassegui quanto ao seu futuro?

Ela também me perguntou como eu achava que seria o dekassegui daqui a 10 anos.
Não saberia dizer como as coisas vão ficar daqui a 10 anos. Quando vim embora do Japão, em novembro de 1999, uma revisão da lei de migração estava entrando em discussão e imaginávamos que ela permitiria a entrada de yonseis. Sete anos depois o que se vê é um movimento no sentido contrário.
No entanto, pela minha experiência e convivência com os brasileiros residentes lá (engraçado, mas no jornal as pessoas ligavam para desabafar, sem saber mais a quem recorrer e eu tive de fato a experiência de ser operária antes, juntando muitas histórias)eu acredito que cada um vai manter o caminho que já definiu: quem se interessou pelo idioma melhorará, quem procura se aculturar e conhecer as nuances da etiqueta social continuará seu polimento, quem optar pelo nicho brasileiro continuará assim.
Parece mentira, mas é possivel mesmo viver muito tempo lá sem falar nem uma palavra de japonês ou falando cerca de 5 ou 10 verbos apenas em seu tempo verbal mais simples (aru, wakaru, nai, shiranai, wakaru, wakaranai). Como nossos ancestrais que motivaram o sambinha “tem roupa prá lavar, tem sim senhor, tem roupa prá passar, tem sim senhor” alguns brasileiros de lá entrarão para o folclore e serão figuras cotidianas, diferentes, mas de certa forma integradas.
Então, basicamente, eu acho que em 10 anos os brasileiros farão parte do Japão. Simplesmente uma parte, integrada na medida do possível e preservando sua cultura como ocorre com muitos nichos de migração no mundo a fora.

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Nov 14
Sotaque Brasileiro em foco: Japão
Matéria que saiu na revista Sotaque Brasileiro, do Canadá, edição de outono de 2006.

Um pequeno Brasil no Oriente

Com 300 mil pessoas, a comunidade brasileira no Japão enfrenta o dilema da identidade cultural
Por Samantha Shiraishi, de São Paulo

Pense numa comunidade brasileira no exterior que tem tudo que você imagina para seu conforto: lojas, restaurantes, escolas, TV brasileira, vários jornais e revistas, agências bancárias, intérpretes em muitos órgãos públicos, empregos bem-remunerados. Parece um sonho? Pois este Little Brazil existe, e com a vantagem de sua população de 300 mil pessoas viver quase totalmente dentro da legalidade. Estamos falando da comunidade brasileira no Japão.
Iniciada em 1989, quando a lei de migração japonesa criou o visto de residente para descendentes de japoneses (estendido depois aos cônjuges brasileiros), a comunidade é conhecida no Brasil como dekassegui. Esta palavra japonesa é usada para se referir a pessoas que saem de sua terra natal para trabalhar temporariamente em outro lugar, longe de suas famílias.
No início do movimento dekassegui, apenas os chefes de família ou solteiros iam trabalhar no Japão. Mas os pais começaram a levar a família e a ter filhos no arquipélago. Logo começaram a surgir enormes dificuldades de adaptação dessas crianças às escolas japonesas. Como resposta ao problema, foram abertas mais de 60 escolas privadas brasileiras no país. Hoje, 19 delas são reconhecidas pelos governos dos dois países. Além disso, escolas japonesas têm programas extracurriculares de adaptação para os brasileiros.
Ainda assim, a educação das crianças é um dos maiores problemas da comunidade brasileira no Japão. Isso se deve à dificuldade que os pais brasileiros têm com o idioma, especialmente escrito, e ao impasse de criar filhos para serem brasileiros ou para serem japoneses. A escola brasileira mantém os vínculos com a pátria, mas limita os alunos ao universo fechado da comunidade brasileira no arquipélago. A escola japonesa, por sua vez, transforma os estudantes de outras nacionalidades em japoneses, o que atrapalha até a comunicação em casa porque essas crianças e jovens não falam o idioma dos pais, e estes não compreendem bem o japonês.

Envolvimento com o mundo do crime

Os problemas de adaptação, no entanto, não param aí. Quem imagina os descendente de japonês como o primeiro da classe que tira a maior nota no vestibular se assusta ao descobrir os grupos heterogêneos que se formaram no Japão. Lá, os brasileiros são associados à criminalidade tanto pela mídia quanto pela sociedade japonesa. Embora muitos digam que se trata de exagero e xenofobia, a verdade é que o envolvimento de brasileiros com o mundo do crime no Japão é preocupante. “Segundo relatórios da polícia, das quatro mil pessoas condenadas em 2004, 1.116 são brasileiros”, revela Adelson Brito, consultor para assuntos de prevenção ao crime na comunidade estrangeira da província de Shizuoka, região com grande concentração de brasileiros.
O consultor foi um dos entrevistados em recente reportagem que a TV Record fez no Japão ao acompanhar a visita da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Emigração Ilegal. “Fomos a presídios e reformatórios juvenis onde brasileiros estão encarcerados”, conta a jornalista Catarina Hong, correspondente da TV Record na Ásia. É a terceira vez que uma comissão de deputados brasileiros averigua a situação dos brasileiros no Japão. Há um ano, o presidente Lula esteve no Japão, mas ainda não há resultados concretos da visita.
Os brasileiros estão concentrados em cidades industriais japonesas. Hamamatsu, Nagoya e Oizumi abrigam as maiores populações brasileiras. A grande maioria dos brasileiros trabalha como operário nos chamados “serviços 3K”: kitanai (sujo), kiken (perigoso) e kitsui (pesado). Fazem o trabalho que o japonês já não se sujeita a fazer. O salário mensal é de cerca de CAD$ 2 mil para mulheres e CAD$ 3 mil para homens – 13,58 por cento do salário é direcionado para o seguro-social, que só recentemente passou a ser obrigatório para os brasileiros.
Na teoria, brasileiros e japoneses são submetidos às mesmas leis trabalhistas, mas poucos dekasseguis têm consciência de seus direitos ou fazem uso deles. A razão disso é a falta de conhecimento do idioma, fator que isola a comunidade dos japoneses, além de causar muitos mal-entendidos e conflitos entre as duas culturas.

Mão-de-obra mais barata
Outro desafio no mercado de trabalho é a oferta de mão-de-obra mais barata. A crescente onda de imigrantes asiáticos levou para o Japão chineses, tailandeses e indonésios que trabalham por um terço do salário pago aos brasileiros. Mas ainda há quem invista na reputação de povo trabalhador dos brasileiros no Japão. “Apesar dos rumores sobre mão-de-obra mais barata, acredito que o movimento dekassegui vai continuar por muito tempo. O alto padrão da mão-de-obra brasileira é reconhecido pelos empresários japoneses”, diz Mutumi Iamada, vice-presidente da Associação Brasileira das Agências Nikkeis (Aban), com sede em São Paulo. A organização agrega empresas que intermedeiam a contratação de brasileiros por fábricas japonesas.
Iamada ressalta que, além de a situação econômica do Brasil continuar desfavorável, muitos brasileiros estão se fixando no Japão, fator que motiva parentes a ir para lá. “E mais: o Japão vive uma crise demográfica e precisa de imigrantes. Uma revisão na lei de imigração não mudaria drasticamente o futuro da comunidade”, diz. A revisão da lei a que Iamada se refere é motivo de preocupação na comunidade dekassegui. Em junho, o vice-ministro da Justiça japonês, Taro Kono, apresentou um esboço de projeto de reforma da política migratória do Japão que sugere mudanças significativas como a abolição do visto de residente permanente para descendentes de japoneses. “Temos de admitir que abrir as portas do país desta forma foi um erro”, disse o vice-ministro à imprensa.
A situação dos imigrantes no Japão está em discussão no Parlamento japonês. O Partido Liberal Democrata (PLD), do primeiro-ministro Junichiro Koizumi, apresentou uma proposta no sentido oposto. O governo quer promover a mão-de-obra estrangeira no Japão e propõe a extensão do período de permanência dos descendentes de japoneses de três para cinco anos e a criação de um Green Card para profissões altamente qualificadas, o que facilitaria a entrada de estrangeiros sem ascendência japonesa no país.

O tamanho da comunidade brasileira no Japão

A terceira maior comunidade brasileira no exterior, tem uma vasta malha de negócios e serviços que inclui de bancos a escolas e shopping centers.
· População brasileira no Japão: 300 mil pessoas. Hamamatsu é a cidade com mais brasileiros (18 mil). Cerca de 30 mil brasileiros vivem na região de Hamamatsu e cidades vizinhas
· Escolas brasileiras: Mais de 60; 19 reconhecidas pelo MEC, Ministério da Educação do Brasil
· Estabelecimentos comerciais: 400 lojas, 80 restaurantes e vários shopping centers
· Bancos: Cinco bancos – Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Santander e Banespa – têm agências no Japão para atender a clientela brasileira
· Mídia verde-amarela: três jornais semanais; cinco revistas mensais com circulação nacional e algumas revistas locais; vários programas de rádio
· Igrejas: Cerca de 500 igrejas para brasileiros (a maioria delas evangélica)

Quem são eles
Conheça o perfil e os sonhos de quatro brasileiros que vivem no Japão
“Meu lugar é no Brasil”
Quando tinha nove anos, Nanci Lissa Miyagasako, 24, foi morar no Japão, onde fez faculdade de relações internacionais. Nanci quer ser professora, faz estágio em uma escola japonesa e participa do grupo de voluntários IAPE (Intercâmbio de Alunos e Pais Estrangeiros) dando aulas de português e espanhol. “Só aos 18 anos é que reencontrei minha origem brasileira. Fui para o Brasil num intercâmbio da Children’s Resourse International, instituição japonesa que atua na associação comunitária da favela Monte Azul, na Zona Sul de São Paulo”, conta. “Pena que não falo bem português para tentar trabalhar no Brasil. Meu lugar é lá. Não quero passar o resto da minha vida no Japão, sendo forçada a ser séria e quieta.”

Falta de perspectivas
A falta de perspectivas no Brasil levou André Kenji Teruya, 29 anos, para o Japão em 1995. O jovem do ABC paulista foi trabalhar em uma fábrica de automóveis na província de Shizuoka. “Sofri muito, tinha saudades do Brasil, estranhava a nova rotina, mas também sentia um deslumbramento por tudo à minha volta, por mais banal que fosse.” André saiu da fábrica para trabalhar como intérprete por telefone em uma companhia de comunicação. Hoje, ele também dá aula de português em uma escola para filhos de dekasseguis. Em um de seus retornos ao Brasil, ele começou a estudar Letras mas teve de trancar a faculdade porque o dinheiro acabou. “O Japão foi, mais uma vez, a solução. No Brasil não sei se teria chances profissionais que tenho aqui.”

Longe do filho
Tatiana Lina Yamada, 30 anos, passou metade da sua vida Japão, para onde foi com a irmã mais velha para encontrar o pai, em 1991. “Fiz um pouco de tudo aqui. Trabalhei em fábricas, cuidei de crianças, fiz bolos, salgados, pratos congelados, trabalhei em restaurante, escritório, escrevi para um jornal em português.” Hoje Tatiana se dedica à filha Luna. O filho mais velho de Tatiana, Yudi, de 12 anos, não se adaptou às escolas japonesas e foi morar no Brasil com os avós. “Espero que ele venha ficar comigo no final do ano. Eu gosto do Brasil, mas depois de tanto tempo vivendo fora do país, a minha maneira de pensar mudou muito. Não sei se me readaptaria ao Brasil.”

Blog sobre adaptação ao país
Formado em turismo, Leandro Ikehara, 26 anos, chegou ao Japão em maio convidado pelo pai, dekassegui há mais de uma década. Pai e filho trabalham numa panificadora. Leandro ainda não fala japonês e tenta se virar em inglês. “Falo “nihonglish”, uso palavras que derivam do inglês com sotaque japonês.” Muitas palavras inglesas foram absorvidas pela língua japonesa –hamburger, por exemplo, virou hambago em japonês. Leandro quer trabalhar na sua área de formação e para isso criou um blog (www.boardingpass2.blogspot.com) em que dá informações turísticas sobre o Japão e fala com humor sobre a adaptação à vida de operário no Oriente.

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Nov 7

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Nov 1


Destino: Japão

Por Lesley McKarney*

Quando Stephanie Curnoe terminou seu doutorado em física em 1997, ela não conseguiu encontrar pós-doutorado no Canadá. Então, como muitos outros PhDs em física, ela estendeu sua procura mundialmente, indo primeiro procurar em Israel e depois no Japão.

Apesar do apoio financeiro, sua bolsa de estudos para o primeiro ano no Japão, custeada pela Japan Society for the Promotion of Science (JSPS), (Sociedade Japonesa Para a Divulgação da Ciência), foi toda baseada no critério da ciência. “O que tem sido feito no Japão em termos de pesquisa em física é realmente o melhor do mundo”, diz Curnoe. Desde que o Conselho Canadense de Pesquisa em Engenharia e Ciências Naturais (Natural Sciences and Engineering Research Council of Canada) (NSERC) começou a administrar a bolsa de pós-doutorado da JSPS em 1995, 78 canadenses aproveitaram a oportunidade para viver e trabalhar no Japão por um período prolongado. A JSPS financia por completo os pesquisadores canadenses para que realizem pesquisa de alto nível em laboratórios nacionais, corporações de pesquisa pública, e alguns institutos sem fins lucrativos, por um período de 1 a 2 anos.

A JSPS também opera programas de bolsas similares na Inglaterra e nos Estados Unidos, para assegurar um intercâmbio científico contínuo entre estes países. Espera-se que, durante o período no Japão, os pesquisadores estrangeiros tenham - além de realizar ciência - a oportunidade de aprender mais sobre o Japão e sua gente.

O NSERC recebe apenas umas 20 inscrições por ano para a bolsa - o que, de acordo com Lynda Laforest, da divisão de bolsas de estudos e intercâmbios, é bem abaixo da cota canadense. O Conselho seleciona os nomes das inscrições que recebe e a JSPS tem decisão final sobre os candidatos adequados. Os candidatos ao pós-doutorado podem driblar a etapa do NSERC ao se inscreveram diretamente na JSPS, mas Laforest diz que as chances são melhores quando a inscrição é feita através do NSERC. O trâmite todo leva de 2 a 3 meses, mas pode chegar a um ano.

Para a maioria dos candidatos, a parte mais difícil exigida no processo de inscrição é achar de um laboratório para ir. Isso se deve em parte ao enorme número de excelentes laboratórios japoneses disponíveis para escolha. “Não há nenhum laboratório no Canadá que se compare com aquele onde trabalhei no Japão”, diz Curnoe. “As instalações dos núcleos de pesquisa são muito superiores.”

Mas não são apenas as instalações que tornam os laboratórios japoneses tão atraentes para os físicos. “É um network de pesquisa muito mais coeso, especialmente em pesquisa de materiais, por exemplo, onde muitos laboratórios em todo o país têm a oportunidade de colaborar”, diz Curnoe. Mesmo assim, o contato inicial com um laboratório foi um pouco difícil, ela acrescenta, e sua inabilidade para se comunicar em japonês fez com que todo o processo se tornasse “meio frustrante”. Finalmente, Curnoe contou com a recomendação de um conhecido seu japonês para achar seu pesquisador anfitrião. “No final, deu tudo certo.”

A habilidade de falar japonês não é um pré-requisito para as bolsas de pós-doutorado da JSPS, mas certamente facilita muito os desafios da vida por lá, diz Mami Ueno, especialista em navegação. Ueno se mudou do Japão para o Canadá há nove anos. Hoje é cidadã canadense, mas recentemente voltou ao Japão por dois meses como bolsista convidada da JSPS, para trabalhar na divisão governamental de navegação por satélite do Electronic Navigation Research Institute (Instituto de Pesquisa da Navegação Eletrônica). Ueno admite que os estrangeiros sentem dificuldade para se ambientar assim que chegam ao Japão. Ela também explica que os japoneses podem passar muitos anos aprendendo inglês na escola mas, apesar disso, muitos têm dificuldade de comunicar o que aprenderam. Ueno sugere que aprender um pouco de japonês antes de sua visita pode “facilitar o seu dia a dia no Japão, como por exemplo, fazer seu pedido em um restaurante e pedir informação para chegar em determinado lugar”. É também considerado de bom tom cumprimentar os japoneses na língua natal.

Curnoe concorda: “Eu não falava uma única palavra de japonês quando cheguei lá, teria facilitado em muito minha estada se eu soubesse falar um pouco.”

Calculada em aproximadamente CA$60,000 (60.000 dólares canadenses) ou US$39,399.35 (quase 40.000 dólares americanos) por ano, a bolsa de estudos da JSPS é consideravelmente mais generosa do que a média de salário de um pós-doutorado no Canadá, mesmo incluindo a passagem aérea de ida e volta para o Japão e os custos de mudança. Mas o seu poder de compra vai depender muito de onde você mora. Ueno diz que o custo de vida na área central de Tóquio é “assustador” e, apesar de haver moradia mais em conta nos subúrbios, a viagem pode ser muito difícil. “Viajar em um trem de Tóquio é horrível. É muito além do que se pode imaginar”, acrescenta Ueno.

No entanto, Curnoe achou que o salário foi mais do que suficiente para viver confortavelmente enquanto trabalhava nos arredores de Tóquio na University of Tokyo`s Institute for Solid-State Physics em Kashiwa, mesmo que o local ali fosse um pouco menos interessante.

Qual o melhor conselho que estes cientistas têm para oferecer aos canadenses que pretendem fazer pesquisa no Japão? Escolha seu laboratório e o cientista anfitrião com muito cuidado, para garantir uma transição tranqüila à sociedade japonesa. Curnoe diz que, graças ao seu orientador japonês, ela teve a rara oportunidade de observar a complexidade sociológica do ambiente de trabalho do país. “Eu tive um ótimo orientador e fui incluída em muitas atividades sociais que giravam em torno das pessoas do seu grupo de pesquisa”. Isso, diz Curnoe, lhe deu uma visão interna da “estrutura da ciência” no Japão, algo que de outra forma seria impossível.

Quando você acha o anfitrião certo as recompensas são muitas, Ueno contribui. “Quando você se torna amigo de um japonês, ele será seu amigo para o resto da vida.”

Rumo ao Japão

Muhammad Shariq Vohra passou dois anos muito produtivos no National Institute of Materials and Chemical Research (NIMC) (Instituto Nacional de Materiais e Pesquisa Química), em Tóquio. Ele achou as instalações do NIMC excelentes e, no geral, considera que a experiência lhe propiciou um bom início de carreira. “Nossos resultados foram publicados em periódicos indexados de reputação internacional. … Também fizemos vários pedidos de patente,” ele diz a Next Wave do Canadá.

Vohra preparou esta lista de links adicionais sobre programas de bolsa que certamente serão úteis para que você dê a partida inicial em sua carreira de pesquisa no Japão:

  • Ciência industrial e tecnologia: O Foreign Researcher Invitation Program (Programa de Convite ao Pesquisador Estrangeiro), ministrado pela Agency of Industrial Science and Technology (AIST) (Agência de Ciência Industrial e Tecnologia); a New Energy and Industrial Technology Development Organization (NEDO), (Organização de Desenvolvimento da Nova Energia e Tecnologia Industrial) e a Industrial Fellowship Program (Programa Industrial de Bolsa de Estudos)
  • Ciência natural, engenharia e medicina: Bolsas do Matsumae International Foundation (MIF) (Fundação Internacional Matsumae; auxílio a bolsas de estudo oferecidas pelo Japan Society for the Promotion of Science (JSPS) (Sociedade Japonesa Para a Dvulgação da Ciência) através do Japan International Science and Technology Exchange Center; (Centro de Intercâmbio Internacional de Ciência e Tecnologia do Japão) e bolsas de estudo da JSPS oferecidas através do Canadian Institutes of Health Research (CIHR, um patrocinador do Next Wave do Canada) (Institutos Canadenses de Pesquisa da Saúde)

Outros links úteis:

*Traduzido por Karen Shishiptorova

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