May 02 2006

A princesinha inteligente Há muitos e muitos anos…

Published by Samantha at 2:22 pm under Uncategorized

A princesinha inteligente
Há muitos e muitos anos, na então capital do Japão, Heian-kyo (hoje Quioto), havia um importante ministro da corte imperial de nome Fujiwara no Toyonari. Ele tinha uma linda filha chamada Tyudyo Hime ou Princesa Tsudyo. A princesinha além de inteligente era uma hábil tocadora de koto (instrumento musical de treze cordas de seda, com cerca de dois metros de comprimento e tangido por três plectros de marfim, em forma de dedeira presos à mão direita). Quando tinha 9 anos tocou para o imperador, e recebeu um honroso presente de sua majestade.A princesa vivia feliz, mas certo dia, sua mãe faleceu por causa de uma doença. E para aumentar a desgraça, o ministro foi caluniado por um cortesão de mau carácter, que, aproveitando-se do momento de dor que passava Toyonari, tentou apossar do cargo na corte. Injustamente acusado, o ministro Fujiwara no Toyonari foi exilado para uma província bem distante de Heian-kyo.A princesa ficou temporariamente morando na casa de parentes, até que seu pai retornasse à capital. Inteligente e bonita como era, todos a tratavam com muito carinho. Certo dia, a princesinha tocou o koto diante dos mais importantes membros da poderosa clã Fujiwara e foi aplaudida com entusiasmo. - Bravo! bravo! Ninguém toca tão bem quanto Hime. Aclamaram os ouvintes com muita euforia.Porém, a mocinha da casa onde ela estava hospedada, fez uma cara de quem não gostou nem um pouco dos elogios que faziam à Princesa Tyudyo. Essa mocinha era filha de um parente do ex-ministro Toyonari e se chamava Teruhi no Mae.Por causa que Tyudyo era elogiado por todos, Teruhi, que tinha quase a mesma idade, morria de ciúmes dela. A princesa Teruhi, por causa de sua beleza, era alvo dos elogios de todos até a chegada da Princesa Tyudyo naquela mansão. O fato de Tyudyo ter lhe roubado a cena, foi para ela um ato odioso e imperdoável. Certo dia, Teruhi no Mae chamou o servo Kadota e deu a seguinte ordem:- Leve a Princesa Tyudyo ao monte Hibari e dê um sumiço nela.Kadota levou um susto ao ouvir tal ordem. Tentou convencê-la que devia parar com tal idéia, mas Teruhi estava irredutível e não lhe dava ouvidos. Kadota então, muito a contra-gosto, levou Tyudyo para o monte Hibari.Mas lá chegando, com pena da princesinha não foi capaz de abandoná-la, deixando à mercê de animais selvagens. Kadota então se ajoelhou na frente da Princesa Tyudyo e falou da ordem que recebeu da princesa Teruhi. - Se ela me odeia a esse ponto, eu devo ter feito alguma coisa errada. Vou ficar morando no meio desta floresta e refletir bastante para poder me aperfeiçoar como pessoa - disse a princesa Tyudyo.Nisso Baya, a dama de companhia da princesa, que preocupada havia saído em seu encalço, apareceu apavorada. Kadota e Baya resolveram ficar morando junto com a princesa na floresta para protegê-la.

A vida na florestaKadota cortou árvores e foi construindo uma casa com a ajuda de Baya. Assim, no meio da floresta, apesar de pequena, foi levantada umas aconchegante casinha. -A princesa não tem mais com que se preocupar, vamos ficar morando aqui até que seu pai retorne da capital, disse Baya, enquanto fazia um arranjo floral no quarto da princesa, ouvindo os gorjeios dos pássaros. Assim, a princesinha passou a viver tranqüilamente na casinha no meio da floresta.- Quero me tornar uma pessoa que não seja odiada pelas outras. Preciso me esforçar para isso. Pensando assim a princesa vivia lendo livros, praticando caligrafia e rezando com muito fervor:- Peço que me ajude a tornar uma pessoa de bom coração e permita-me encontrar o mais breve possível com meu pai.Certo dia, como sempre fazia para ganhar o sustento, Baya foi vender maços de flores silvestres no vilarejo mais próximo.-Flores, comprem flores! Gritando assim, ela ia de um lado para outro levando uma cesta de flores na cabeça. Ao entrar no bosque, Baya ouviu uma voz que repetia: - Hou taka!, hou taka!Era voz de um takagari chamando pelo taka (falcão). Takagari eram amestradores de falcões, que criavam essas aves em casa, fazendo voar para pegar um pássaro no ar e trazer para ele. Era uma espécie de esporte da época, chamado caçada com falcões.Quando Baya se aproximou do pessoal que estava lidando com as aves, vendo a moça gritou:- Dona florista, carrega lindas flores como você.Ao ouvir isso, Baya ficou contente e perguntou se os rapazes desejam comprar flores, baixando a cesta e mostrando um lindo buquê.- Dona florista, mostre-nos uma dança interessante, e compraremos suas flores.- Está combinado, vou apresentar uma dança para vocês - disse Baya sem vacilar.Baya levantou-se com gestos graciosos, esticou suavemente as duas mãos e cantando começou a dançar. A canção na voz de Baya ecoou pelo bosque e se fez ouvir entre as árvores. Atraído pela voz um homem distinto, com roupas de nobre, acompanhado de subordinados se aproximou da roda. Vendo a graciosa moça dançar e cantar, surpreso disse:- Baya, é você Baya! Onde está a princesa?A pessoa distinta era o ministro Fujiwara no Toyonari, pai da Princesa Tyudyo. Depois de descobrir que as acusações que lhe imputaram eram todas falsas, ele voltou à corte como ministro. Ele havia procurado pela filha na casa dos parentes e ficou sabendo que ela havia desaparecido e estava muito preocupado. Saiu procurando por vários lugares e finalmente estava para se reencontrar com ela.Baya levou o ministro para a casa no meio da floresta.- Oh! princesa você estava neste lugar tão selvagem. Dizendo isso, ele deu um abraço apertado na filha. A princesinha agarrou-se ao pai para certificar-se de que não era um sonho. Era tanta a alegria que as lágrimas rolaram pela face dos dois. Baya e Kadota também verteram lágrimas de emoção.- Princesa, vamos embora logo para nossa casa na capital. Baya e Kadota vamos arrumar as malas depressa!

O fio de lótusA princesa Tyudyo voltou para casa com seu pai e passou a viver feliz e tranqüilamente. A princesa Teruhi no Mae veio passear, pediu desculpas e elas tornaram-se muito amigas.A princesa rezava diariamente:-Graças ao Buda pude tornar-me tão feliz. Vou me esforçar para ser uma pessoa maravilhosa para que Buda fique feliz. Se eu pudesse ver o rosto de Buda pelo menos uma vez, seria a criatura mais feliz do mundo.Certo dia, a princesa passeava pelos arredores de sua casa e viu uma linda flor no lago. Nas folhas verdes havia orvalhos brilhantes que pareciam pérolas.Enquanto a princesa olhava para a flor de lótus, ela ouviu uma voz suave que lhe disse:-Quebre um talo da lótus e puxe os fios dele.Obedecendo a voz encantadora, que surgiu não se sabe de onde, a princesa começou a quebrar os talos e tirar fios. Esses fios eram mais finos que os da seda e tinham um brilho cintilante.Depois de colher muitos fios, a princesa lavou-os nas águas do lago. Nisso, novamente não se sabe de onde, a voz maravilhosa se fez ouvir.-Princesa, tinja os fios de seda em cinco cores: vermelho, azul, branco, amarelo e preto. Use as flores, os frutos, os galhos pendurando os fios por toda parte.Hime achou um pouco estranho aquela sugestão, mas pendurou os maços de fios cintilantes sobre os locais mencionados.-Mas que coisa estranha! Os fios pendurados, à medida que iam secando, adquiriam cores das flores, folhas, galhos e frutos. Quando a princesa estava recolhendo os fios de cinco cores, novamente ouviu a voz que disse:-Use esses fios no tear para ver o que acontece.A princesa colocou os fios de lótus de cinco cores - vermelho, azul, preto, branco, e amarelo -, e começou a tecer.-Tonkaraka, tonkaraka! Fazia o som do tear assim que a princesa começou a manipulá-lo.Aos poucos uma peça diáfana foi sendo tecida. Na mistura das cores foram aparecendo lindas e decorativas figuras.-Oh! Como é bonito , exclamou a princesa admirada.No centro do tecido, uma figura de Hotokessama (Buda), calmamente sentado. Ao redor dessa figura, várias flores de lótus. Outras figuras de bossatsu (Bodhisattva), estavam espalhadas no tecido, tocando flauta, cantando e dançando.Enquanto a princesa apreciava o motivo do tecido, sentiu uma satisfação indescritível. Seu coração tornou-se quente.-Conforme seu pedido, fiz que você visse a imagem de Hotokessama, disse uma voz surgindo do nada. A princesa Tyudyô, sem pensar duas vezes, juntou as palmas das mãos e agradeceu:-Muito obrigada. Apreciando esse bonito tecido nosso coração fica limpo.A linda peça que a princesa Tyudyô teceu se tornou conhecida como Hassu no Mandara (Mandala de Lótus), e ainda hoje está preservada no templo budista de Nara.

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