May 2

Hamaguri Hime

Antigamente, em uma pequena aldeia litorânea do Japão, havia um jovem pescador chamado Shijira. Ele vivia numa modesta casa com sua mãe, uma senhora de idade avançada e de pouca saúde.-Mãe, estou saindo para pescar.-Tome cuidado, filho.Devido a uma longa estiagem que se abateu sobre o Japão, aquele foi um péssimo ano para a plantação de arroz e verduras. Isso provocou a alta no preço dos cereais. Shijira, que era pobre, ficou sem condições de comprar arroz e outros mantimentos. Ele e sua mãe passaram a sobreviver se alimentando apenas com o que conseguiam pescar diariamente no mar.Shijira era um bom filho. Por isso, quando conseguia pescar pouco, preparava para a mãe e, ele mesmo, ficava muitas vezes sem comer. Fazia massagens nos ombros dela e costumava dizer com carinho:-Mãe viva bastante, o pai já se foi e só me resta você. Não vá me deixar sozinho na vida.Certo dia Shijira saiu para pescar em seu barco. Passou o dia inteiro tentando mas não conseguiu pegar nada. Já estava ficando desanimado quando sentiu que algo estava beliscando a isca. Deu um puxão na vara e viu que havia apanhado uma linda concha.-Ora, uma concha apenas de nada adianta. Dizendo isso atirou a concha de volta ao mar. Pouco depois sentiu novamente que algo estava beliscando a isca. Deu novo puxão e mais uma vez havia pescado uma concha.-Engraçado parece a mesma concha…Assim pensando, jogou-a novamente ao mar. E pela terceira vez percebeu que algo continuava beliscando a isca. Novamente puxou a linha e viu que tinha na sua ponta a mesma concha. -Algo estranho está acontecendo. É a mesma concha! Não é possível a mesma concha ser fisgada três vezes seguidas.Shijira colocou a concha no barco e começou a observá-la. A concha começou a crescer, a crescer, a crescer, ficou enorme, ocupando quase todo o barco e adquiriu um brilho de inexplicável beleza. -Meu Deus o que está acontecendo ?! Que negócio é este?De repente, a concha se abriu e dentro dela havia uma moça lindíssima, sentada e com trajes em seda pura. Assustado, Shijira chegou a fazer reverências, pensando que era uma deusa do mar.-Oh! É a princesa Otohime, do castelo do Rei Dragão! Quanta honra recebê-la em meu barco. Perdoe-me por meu barco estar tão sujo…Então, a linda visitante respondeu:-Não sou Otohime. Sou alguém que não tem para onde ir. Estou perdida. Por favor, deixe-me ficar em sua casa.-Mas… minha casa é pobre e velha. Não é digna para receber uma pessoa da nobreza como você.Shijira ficou com vergonha de receber em sua casa uma moça tão fina, mas ela insistiu tanto que ele acabou cedendo. Remando com grande emoção conduziu o barco até a praia.-Espere um pouco, disse Shijira, e correu em direção à sua casa. Lá chegando, contou à sua mãe tudo o que havia acontecido.-Uma bela princesa não se deixa esperando, meu filho. Vá buscá-la correndo. Dizendo isso, a velhinha logo começou a limpar, apressadamente, a casa.Como ela estava descalça, Shijira carregou-a nos braços até a casa. A mãe do rapaz recebeu a bela donzela feliz da vida dizendo:-Princesa, você pode ficar o tempo que quiser em nossa casa. E quem sabe tornar-se a esposa de meu filho.A fama de que a bela princesa que saiu de dentro de uma concha ia se tornar a esposa do pescador Shijira correu de boca em boca por todos os lugares. De várias regiões vieram pessoas visitar Shijira só para ver a tal princesa. Todos traziam, infalivelmente de presente, duas coisas consideradas de grande utilidade na época: rolo com linha de seda e uma tigela de arroz.A casa do pescador ficou abarrotada de arroz. Mãe e filho ficaram muito felizes, pois depois de muito tempo, puderam encher a barriga com o arroz que tanto gostavam.-Ah! Como é gostoso o arroz branco! Isso foi possível graças à princesa Hanaguri que veio a nossa casa, para ser sua esposa, filho… dizia a velhinha que não cansava de tentar arranjar uma esposa para Shijira.

A bela peça
Certo dia, a Princesa Hamaguri pediu ao moço que construísse um enorme tear, pois desejava tecer os fios que havia ganhado. Em pouco tempo o tear ficou pronto. -Será que você vai conseguir tocar um tear tão grande sozinha? Perguntou Shijira.-Não se preocupe que tudo vai dar certo. Respondeu a Princesa Hamaguri, e começou a trabalhar no tear. Nesse exato instante uma jovem chegou pedindo licença para entrar e começou a ajudar a princesa.Hamaguri tecia dia e noite num ritmo tão cadenciado que o som parecia a de uma música.Doze dias depois, uma bela peça estava pronta. E a princesa mostrou para Shijira e sua mãe.-Que belo trabalho, comentou a mãe.-Uma peça maravilhosa, disse o pescador.-Shijira, leve essa peça até a cidade e venda por 3 mil gan, disse a princesa.- Três mil gan é dinheiro que dá para construir uma bela mansão. Não é caro demais?-Não se preocupe. Esta ppeça vale 3000 gan.Shijira levou o tapete à cidade e, numa rua onde havia muito comércio, estendeu o tapete. Muitas pessoas perguntaram quanto custava. Shijira respondia 3000 gan e todos riam do preço.-3000 gan é uma soma fabulosa, rapaz.-Não existe quem pague tanto dinheiro por uma peça, por mais bonita que seja.Ao entardecer Shijira ainda não havia conseguido vender a peça. Então resolveu enrolar o tapete e ir embora para casa. Nesse momento passou por lá um ilustre senhor idoso e seus acompanhantes.-Rapaz, mostre-me esse tapete.Shijira desenrolou de volta a peça e mostrou para o senhor que estava a cavalo. O homem ficou maravilhado com a peça:-Que bela peça, uma legítima obra de arte. Vamos até a minha casa que eu compro esse tapete.Caminhando em direção ao sul da cidade, chegaram na mansão do velho. Era uma residência enorme cheia de moças bonitas. A dona da casa serviu saquê para o pescador.
A despedidaO velho mostrou 3000gan em moedas para Shijira num baú lindamente decorado. Pediu para os criados que tratassem de entregar na casa do pescador. Em seguida, montou numa nuvem que subiu para o céu. Shijira ficou muito assustado com o que vira. Não sabia o que estava realmente acontecendo, sentiu uma tontura e, quando deu por si novamente, estava em frente da sua casa.Assustado, entrou correndo para dentro da casa, pensando que tivera uma alucinação. Mas ficou surpreso ao se deparar com o baú de moedas que já havia sido entregue.A mãe e a princesa o receberam cordialmente:-Você esteve na casa de um nobre ancião e lhe foi servido saquê?Hamaguri sabia de tudo: - A casa do velho é do pai da deusa Kannon. O saquê que você bebeu é o elixir da longevidade. A deusa Kannon recompensou você por ser um bom filho, por tratar bem de sua mãe. Sou a emissária de Kannon. Com 3000 gan , nunca mais faltará dinheiro para vocês. Continue cuidando bem de sua mãe e tenha uma longa vida.Hamaguri Hime começou a flutuar e foi embora para o céu. Shijira e sua mãe tentaram deter, mas não conseguiram. Uma música agradável foi ouvida ao mesmo tempo que um perfume suave tomou conta do ar.A princesa Hamaguri desapareceu no infinito azul.

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May 2

A princesinha inteligente
Há muitos e muitos anos, na então capital do Japão, Heian-kyo (hoje Quioto), havia um importante ministro da corte imperial de nome Fujiwara no Toyonari. Ele tinha uma linda filha chamada Tyudyo Hime ou Princesa Tsudyo. A princesinha além de inteligente era uma hábil tocadora de koto (instrumento musical de treze cordas de seda, com cerca de dois metros de comprimento e tangido por três plectros de marfim, em forma de dedeira presos à mão direita). Quando tinha 9 anos tocou para o imperador, e recebeu um honroso presente de sua majestade.A princesa vivia feliz, mas certo dia, sua mãe faleceu por causa de uma doença. E para aumentar a desgraça, o ministro foi caluniado por um cortesão de mau carácter, que, aproveitando-se do momento de dor que passava Toyonari, tentou apossar do cargo na corte. Injustamente acusado, o ministro Fujiwara no Toyonari foi exilado para uma província bem distante de Heian-kyo.A princesa ficou temporariamente morando na casa de parentes, até que seu pai retornasse à capital. Inteligente e bonita como era, todos a tratavam com muito carinho. Certo dia, a princesinha tocou o koto diante dos mais importantes membros da poderosa clã Fujiwara e foi aplaudida com entusiasmo. - Bravo! bravo! Ninguém toca tão bem quanto Hime. Aclamaram os ouvintes com muita euforia.Porém, a mocinha da casa onde ela estava hospedada, fez uma cara de quem não gostou nem um pouco dos elogios que faziam à Princesa Tyudyo. Essa mocinha era filha de um parente do ex-ministro Toyonari e se chamava Teruhi no Mae.Por causa que Tyudyo era elogiado por todos, Teruhi, que tinha quase a mesma idade, morria de ciúmes dela. A princesa Teruhi, por causa de sua beleza, era alvo dos elogios de todos até a chegada da Princesa Tyudyo naquela mansão. O fato de Tyudyo ter lhe roubado a cena, foi para ela um ato odioso e imperdoável. Certo dia, Teruhi no Mae chamou o servo Kadota e deu a seguinte ordem:- Leve a Princesa Tyudyo ao monte Hibari e dê um sumiço nela.Kadota levou um susto ao ouvir tal ordem. Tentou convencê-la que devia parar com tal idéia, mas Teruhi estava irredutível e não lhe dava ouvidos. Kadota então, muito a contra-gosto, levou Tyudyo para o monte Hibari.Mas lá chegando, com pena da princesinha não foi capaz de abandoná-la, deixando à mercê de animais selvagens. Kadota então se ajoelhou na frente da Princesa Tyudyo e falou da ordem que recebeu da princesa Teruhi. - Se ela me odeia a esse ponto, eu devo ter feito alguma coisa errada. Vou ficar morando no meio desta floresta e refletir bastante para poder me aperfeiçoar como pessoa - disse a princesa Tyudyo.Nisso Baya, a dama de companhia da princesa, que preocupada havia saído em seu encalço, apareceu apavorada. Kadota e Baya resolveram ficar morando junto com a princesa na floresta para protegê-la.

A vida na florestaKadota cortou árvores e foi construindo uma casa com a ajuda de Baya. Assim, no meio da floresta, apesar de pequena, foi levantada umas aconchegante casinha. -A princesa não tem mais com que se preocupar, vamos ficar morando aqui até que seu pai retorne da capital, disse Baya, enquanto fazia um arranjo floral no quarto da princesa, ouvindo os gorjeios dos pássaros. Assim, a princesinha passou a viver tranqüilamente na casinha no meio da floresta.- Quero me tornar uma pessoa que não seja odiada pelas outras. Preciso me esforçar para isso. Pensando assim a princesa vivia lendo livros, praticando caligrafia e rezando com muito fervor:- Peço que me ajude a tornar uma pessoa de bom coração e permita-me encontrar o mais breve possível com meu pai.Certo dia, como sempre fazia para ganhar o sustento, Baya foi vender maços de flores silvestres no vilarejo mais próximo.-Flores, comprem flores! Gritando assim, ela ia de um lado para outro levando uma cesta de flores na cabeça. Ao entrar no bosque, Baya ouviu uma voz que repetia: - Hou taka!, hou taka!Era voz de um takagari chamando pelo taka (falcão). Takagari eram amestradores de falcões, que criavam essas aves em casa, fazendo voar para pegar um pássaro no ar e trazer para ele. Era uma espécie de esporte da época, chamado caçada com falcões.Quando Baya se aproximou do pessoal que estava lidando com as aves, vendo a moça gritou:- Dona florista, carrega lindas flores como você.Ao ouvir isso, Baya ficou contente e perguntou se os rapazes desejam comprar flores, baixando a cesta e mostrando um lindo buquê.- Dona florista, mostre-nos uma dança interessante, e compraremos suas flores.- Está combinado, vou apresentar uma dança para vocês - disse Baya sem vacilar.Baya levantou-se com gestos graciosos, esticou suavemente as duas mãos e cantando começou a dançar. A canção na voz de Baya ecoou pelo bosque e se fez ouvir entre as árvores. Atraído pela voz um homem distinto, com roupas de nobre, acompanhado de subordinados se aproximou da roda. Vendo a graciosa moça dançar e cantar, surpreso disse:- Baya, é você Baya! Onde está a princesa?A pessoa distinta era o ministro Fujiwara no Toyonari, pai da Princesa Tyudyo. Depois de descobrir que as acusações que lhe imputaram eram todas falsas, ele voltou à corte como ministro. Ele havia procurado pela filha na casa dos parentes e ficou sabendo que ela havia desaparecido e estava muito preocupado. Saiu procurando por vários lugares e finalmente estava para se reencontrar com ela.Baya levou o ministro para a casa no meio da floresta.- Oh! princesa você estava neste lugar tão selvagem. Dizendo isso, ele deu um abraço apertado na filha. A princesinha agarrou-se ao pai para certificar-se de que não era um sonho. Era tanta a alegria que as lágrimas rolaram pela face dos dois. Baya e Kadota também verteram lágrimas de emoção.- Princesa, vamos embora logo para nossa casa na capital. Baya e Kadota vamos arrumar as malas depressa!

O fio de lótusA princesa Tyudyo voltou para casa com seu pai e passou a viver feliz e tranqüilamente. A princesa Teruhi no Mae veio passear, pediu desculpas e elas tornaram-se muito amigas.A princesa rezava diariamente:-Graças ao Buda pude tornar-me tão feliz. Vou me esforçar para ser uma pessoa maravilhosa para que Buda fique feliz. Se eu pudesse ver o rosto de Buda pelo menos uma vez, seria a criatura mais feliz do mundo.Certo dia, a princesa passeava pelos arredores de sua casa e viu uma linda flor no lago. Nas folhas verdes havia orvalhos brilhantes que pareciam pérolas.Enquanto a princesa olhava para a flor de lótus, ela ouviu uma voz suave que lhe disse:-Quebre um talo da lótus e puxe os fios dele.Obedecendo a voz encantadora, que surgiu não se sabe de onde, a princesa começou a quebrar os talos e tirar fios. Esses fios eram mais finos que os da seda e tinham um brilho cintilante.Depois de colher muitos fios, a princesa lavou-os nas águas do lago. Nisso, novamente não se sabe de onde, a voz maravilhosa se fez ouvir.-Princesa, tinja os fios de seda em cinco cores: vermelho, azul, branco, amarelo e preto. Use as flores, os frutos, os galhos pendurando os fios por toda parte.Hime achou um pouco estranho aquela sugestão, mas pendurou os maços de fios cintilantes sobre os locais mencionados.-Mas que coisa estranha! Os fios pendurados, à medida que iam secando, adquiriam cores das flores, folhas, galhos e frutos. Quando a princesa estava recolhendo os fios de cinco cores, novamente ouviu a voz que disse:-Use esses fios no tear para ver o que acontece.A princesa colocou os fios de lótus de cinco cores - vermelho, azul, preto, branco, e amarelo -, e começou a tecer.-Tonkaraka, tonkaraka! Fazia o som do tear assim que a princesa começou a manipulá-lo.Aos poucos uma peça diáfana foi sendo tecida. Na mistura das cores foram aparecendo lindas e decorativas figuras.-Oh! Como é bonito , exclamou a princesa admirada.No centro do tecido, uma figura de Hotokessama (Buda), calmamente sentado. Ao redor dessa figura, várias flores de lótus. Outras figuras de bossatsu (Bodhisattva), estavam espalhadas no tecido, tocando flauta, cantando e dançando.Enquanto a princesa apreciava o motivo do tecido, sentiu uma satisfação indescritível. Seu coração tornou-se quente.-Conforme seu pedido, fiz que você visse a imagem de Hotokessama, disse uma voz surgindo do nada. A princesa Tyudyô, sem pensar duas vezes, juntou as palmas das mãos e agradeceu:-Muito obrigada. Apreciando esse bonito tecido nosso coração fica limpo.A linda peça que a princesa Tyudyô teceu se tornou conhecida como Hassu no Mandara (Mandala de Lótus), e ainda hoje está preservada no templo budista de Nara.

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